Atavismos Genéticos (ou reaparecimento de órgãos dos nossos antepassados)

Existem alguns casos raros na literatura médica humana que podem ser interpretados como atavismos, ou seja, uma literal "volta ao passado", no qual características morfológicas já perdidas pelo ser humano ao longo de sua evolução desde o antepassado primata comum, reaparecem em sua expressão. É o caso de glândulas mamárias supranumerárias, com os mamilos em formação em "V", semelhante a de mamíferos anteriores aos primatas, de caudas na região sacral, e de padrões de cobertura de pelo em todo a face ou corpo, semelhante a de chimpanzés. É o caso de uma criança chinesa, que nasceu com o corpo quase que totalmente recoberto de um espesso pelo.

No entanto, o atavismo genético não é aceito por muitos cientistas, que concordam que o tema é polêmico. O que é interpretado como o atavismo, argumentam eles, muitas vezes é apenas um exemplo de desenvolvimento embrionário anormal, ou de uma doença rara. O fato do resultado fenotípico ser parecido com características morfológicas de primatas ou outros mamíferos na escala evolutiva não significa necessariamente que um gene "oculto" em nosso genoma tenha sido desreprimido. Seria preciso comprovar isso em nível molecular.

Outro motivo para a teoria do atavismo não ser bem aceita é que no passado ela foi utilizada para fins de discriminação racial pelos europeus. O médico Cesare Lombroso, no século passado, criou toda uma "teoria" sem comprovação científica, que os criminosos e os "povos inferiores" seriam facilmente identificados pela existância de "atavismos" em suas estruturas corporais, tais como testa e arcada frontal muito proeminentes, mandíbula muito grande e prognática, braços muito longos, pelo corporal excessivo, etc. Partia-se do princípio que as pessoas com atavismos eram marcadas geneticamente para serem criminosos, inferiores, com más características morais, etc. Teorias como essas foram abertamente utilizadas pelos impérios coloniais, nazistas, etc., para justificar a dominação sobre outros povos.

Fonte: "Evolution: Zufall oder Sinn ?". Bild der Wissenschaft, 4: 114-126, 1979.

Por Dra. Silvia Helena Cardoso e Dr. Renato Sabbatini

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