Animais Pensam?

Tim Radford

Mamíferos têm cérebros. Desta forma eles experimentam medo e reagem com desgosto. Se um antílope não sentisse dor, ele continuaria a pastar enquanto leões estivessem mastigando seus quartos traseiros. Se um antílope não tivesse medo, não dispararia correndo, ao avistar um guepardo. Se um cão não sentisse desgosto, ele não vomitaria.

Dor, medo e desgosto são parte da maquinaria de sobrevivência adquirida por dezenas de milhões de anos de evolução. O Homo sapiens, no entanto, está por aqui há apenas 200 mil anos. Portanto, estes três estados emocionais devem algo de sua existência às nossas origens como mamíferos. Se os membros mamíferos bípedes de um clube de críquete são capazes de ter emoções, é porque antílopes, raposas e c/'aes também têm. O argumento deve dizer respeito a o quanto "consciente" os mamíferos não humanos podem estar quando têm estas experiências emocionais. Quando uma raposa ouve os cães da caça a latir, e começa a correr, será que ela está apenas obedecendo a algum instinto herdado de seus ancestrais, que sabiam quando dar o fora de uma zona de perigo? Ou ela "sabe" que deve ficar com medo?

Talvez esta seja a questão errada. Quando um ser humano se assusta com uma forma estranha em um corredor escuro, ele sente o coração bater forte, os pulmões se esforçando por mais ar, e o corpo se encolhe e fica tenso. Esta é a famosa reação de luta ou fuga. Um ser humano experimenta a força total do medo, e já começa a reagir ao perigo uma fração de segundo antes de que o cérebro tenha tempo de absorver e interpretar a informação contida na forma ameaçadora. Isso acontece porque os cálculos mentais são muito lentos para adequar-se a um ataque de surpresa. Dor precede a lógica. Toque algo muito quente e você retira a sua mão antes de ter tempo de pensar em fazer isso. Novamente, a sabedoria vem após o evento.

Se seres humanos podem experimentar as emoções universais de medo, raiva, desgosto, felicidade, tristeza e surpresa, acho que muitos outros mamíferos também podem. O enigma verdadeiro é: será que um animal pensa sobre seu estado de medo? Será que ele tem não apenas uma mente, mas o que chamamos de uma "teoria da mente" (em outras palavras, será que ele pode se colocar no lugar de outro animal como ele?). Será que ele tem um senso de identidade?

Todos os animais se comunicam, mas apenas os seres humanos têm linguagem. Assim, o enigma continua: será que os animais são capazes de pensar? Será que eles pensam sobre abstrações, sobre o passado, sobre outros animais?

Com isso em mente, pesquisadores tem se debatido com uma série de experimentos com o objetivo de determinar se eles são capazes de se comportar como se tivessem a capacidade de aprender, a vontade de improvisar e a habilidade de adivinhar o que outros animais estão pensando (ou seja, se tem a tal de "teoria da mente"). Cães mostram uma capacidade notável de adivinhar corretamente as intenções dos seres humanos. No entanto, os cães têm convivido intimimamente conosco por pelo menos 15 mil anos, de tal forma que o cão doméstico pode não ser o animal de teste ideal.

Os antropóides, os parentes mais próximos da humanidade, mostram habilidades inesperadas. Pesquisadores da Universidade de St. Andrews, na Inglaterra, contaram em 1999 cerca de 39 maneiras diferentes com que os chimpanzés lidam com comida. Elas diferem de acordo com o grupo e com a geografia, de tal forma que os pesquisadores têm usado a palavra "cultura" para descrever estes diferentes métodos. Uma chimpanzé fêmea em Kyoto, Japão, convenceu os pesquisadores que ela consegue colocar algarismos arábicos em ordem, de um a nove. Dois macacos rhesus chamados Rosencrantz e Macduff deixaram atônitos os pesquisadores de uma equipe da Columbia University em New York em 1998, ao conseguirem distinguir grupos de objetos com um a quatro componentes. Os chimpanzés de uma grande colônia em cativeiro forjam alianças políticas, mudam de partido, e traem uns aos outros. Eles também já foram observados na natureza procurando sistemáticamente determinadas folhas que têm efeito medicinal. A partir de tais observações nasceu um ramo inteiro novo de pesquisa, chamado de zoofarmacognosia.

Chimpanzés e seres humanos compartilham um antecessor comum e têm 98% do DNA idêntico. Será que mamíferos mais distantes também compartilham nossa capacidade de cogitar? Keith Kendrick, no Babraham Institute da Universidade de Cambridge, espantou o mundo, anos atrás, ao revelar que carneiros são capazes de reconhecer até 50 de seus companheiros, e até 10 diferentes faces humanas, pelo menos por dois anos após terem visto pela primeira vez. Se um carneiro ou ovelha consegue conseguem reconhecer imagens faciais mostradas em cartões ou em uma tela, ele deve ter um senso de que estes outros carneiros existem, mesmo que eles não estejam ali, ou seja, talvez eles tenham uma idéia do "eu".

Mais desconcertante ainda é o fato de que até porcos demonstraram possuir uma teoria da mente. Mike Mendl,da Universidade de Bristol, Inglaterra, revelou em um festival de ciência em 2002 que experimentos evidenciaram que um porco forte, que não sabia onde estava escondido um alimento, aprendia a seguir um porco mais fraco, mas mais bem informado, até o local onde ele estava. Nesse ponto, o porco mais fraco começava a usar comportamento de despistar o porco mais forte, mantendo-o na ignorância para que conseguisse correr para a comida quando ele não estivesse olhando. Ou seja, um porco consegue adivinhar o que um outro porco estã pensando, para ser mais esperto do que ele! Em seres humanos, isso é chamado de "inteligência".

Entretanto, o animal capaz de resolver problemas que está no topo da classe em 2002 não é um mamífero. É um corvo chamado Betty, quye mora em um laboratório da Universidade de Oxford. Ela repetidamente consegue apanhar um pedaço de arame e entortá-lo na forma de um gancho, que utiliza para pescar e puxar um pedaço de apetitoso alimento colocado em um tubo muito profundo para seu bico. O que deixou os observadores intrigados, conforme o artigo que apareceu na revista Science, é que Betty nunca tinha visto um arame antes. Portanto, um animal tão distante da humanidade foi capaz de identificar um desafio, considerar um problema simples de física, identificar a forma de uma ferramenta, selecionar um material bruto, fazer uma ferramenta e conseguir pegar a sua recompensa. Aves são parentes não de mamíferos, mas de dinosauros. Nosso ancestral comum está cerca de 200 milhões de anos atrás.

Experimentos como esses confirmam, muitas vezes, que outros mamíferos são muito mais parecidos conosco do que pensãvamos. Portanto, fica cada vez mais difícil distingüir o que nos faz diferentes. Pense nisso se um dia for participar de uma caçada.

O Autor 

Tim Radford é o editor de ciência do jornal inglês Guardian

Reproduzido com a permissão do autor. Tradução de Renato M.E. Sabbatini

tim.radford@guardian.co.uk


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Revista Cérebro & Mente
Uma realização do
Núcleo de Informática Biomédica
Universidade Estadual de Campinas, Brasil
Publicado em 25.Mai.2003