A Evolução da Inteligência Humana

Renato M.E. Sabbatini, PhD

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Um dos mais fascinantes temas da ciência diz respeito a como surgiu a inteligência humana ao longo da evolução dos grandes primatas aos hominídeos, chegando até o ser humano moderno. A inteligência é um tema fascinante justamente porque nos dá a chave para o tesouro do entendimento sobre nós mesmos, e de como a seleção natural foi capaz de produzir tamanha maravilha como o cérebro humano e suas assombrosas capacidades em um tempo evolucionário tão curto. Também fornece uma explanação sobre a natureza da nossa singularidade no reino animal e porque nós somos assim hoje.

De fato, muitas facetas da evolução da inteligência humana são ainda matéria de considerável mistério, porque ela não pode ser observada diretamente no registro paleontológico, tal como ocorre com um osso ou os dentes, por exemplo. A evidência reunida por cientistas sobre a inteligência é obtida indiretamente, a partir da observação do aumento do tamanho da capacidade craniana, de artefatos produzidos como resultado da inteligência humana, tais como a fabricação de ferramentas, a caça cooperativa, a guerra, o uso do fogo e o cozimento de alimentos, a arte, o enterramento dos mortos, e poucas outras coisas mais.

O aparecimento da inteligência, juntamente com a linguagem (e ambas são indissoluvelmente entrelaçadas, como veremos adiante), foi um passo espetacular da evolução animal. Ela apareceu em primatas, mas poderia ter sido desenvolvida igualmente bem em outros mamíferos avançados, tais como golfinhos. Por que ela se desenvolveu em primatas e não em outros gêneros animais? Provavelmente pela inerente instabilidade de ambientes terrestres, quando comparados com os ambientes aquáticos, e quase certamente devido a uma série de mudanças dramáticas no clima africano em certos pontos da história geológica. Portanto, os fenômenos probabilistícos podem ser muito bem a explicação porque estamos agora na posição de sermos os mais inteligentes de todos os animais da Terra.

Este passo evolucionário foi espetacular porque deu origem a um círculo cada vez mais rápido de retroalimentação positiva entre a evolução cultural (trazida pela linguagem) e o desenvolvimento posterior do cérebro, ao aumentar enormemente o sucesso reprodutivo e as chances de sobrevivência do organismo assim armados com um cérebro capaz de alta flexibilidade, adaptabilidade e capacidade de aprendizagem. Em um período de um a dois milhões de anos (praticamente um piscar de olhos em termos de tempo geológico), este poderoso impulso de evolução neural levou ao que somos hoje e ao que o homem foi nos últimos 100.000 anos.

Estaria a inteligência presente apenas nos seres humanos? É claro que não. A inteligência humanas parece ser composta de um número de funções neurais correlacionadas e que operam cooperativamente, muitas das quais já estão presentes em outros primatas, tais como a dexteridade manual, visão colorida estereoscópica altamente sofisticada e acurada, reconhecimento e uso de símbolos complexos, coisas abstratas que representam outras) memória de longo prazo, etc. De fato, a visão científica atual é que de que existem vários graus de complexidade de inteligência presente em mamíferos e que nós compartilhamos com eles muitas características que anteriormente pensávamos que eram únicas ao homem (tais como linguagem simbólica, como já foi provado que ocorre em primatas).

Os cientistas têm levantado hipóteses sobre a existência de uma "massa crítica" de neurônios como sendo o pré-requisito para a "explosão" evolucionária da inteligência. Em outras palavras, abaixo de um certo número de neurônios (ou tamanho do cérebro), a inteligência é altamente limitada e não leva à invenção, imaginação, comunicação social simbólica e outras coisas que não existem em cérebros não-humanos. Um número grande de fatores evolucionários convergentes determinaram um rápido aumento no tamanho e complexidade do cérebro dos hominídeos e estes levaram à primeira espécie verdadeiramente Homo. A massa crítica foi atingida e após isso foi apenas uma questão de evolução quantitativa, apenas.

Definindo inteligência

Mas o que é inteligência? Antes de embarcarmos em uma viagem rumo ao entendimento de sua evolução, devemos tentar conhecer melhor o objeto de nossa questão.

Parece que existem tantas definições de inteligência quanto existem cientistas trabalhando no campo. De acordo com a Enciclopédia Britânica, "ela é a habilidade de se adaptar efetivamente ao ambiente, seja fazendo uma mudança em nós mesmos ou mudando o ambiente ou buscando um novo ambiente". Esta é uma definição inteligente, porque ela incorpora os conceitos de aprendizado (uma mudança em nós mesmos), manufatura e abrigo (mudança do ambiente) e migração (encontrando um novo ambiente). A inteligência é uma entidade multifatorial, envolvendo coisas tais como linguagem, pensamento, memória, raciocínio, consciência (a percepção de si mesmo), capacidade para aprendizagem e integração de várias modalidades sensoriais. De modo a nos adaptarmos efetivamente, o cérebro deve usar todas estas funções. Portanto, "inteligência não é um processo mental único, mas sim uma combinação de muitos processos mentais dirigidos à adaptação efetiva do ambiente", prossegue a definição da EB.

Reconhecer quais são os componentes da inteligência é muito importante em termos de montar uma "teoria da inteligência". Uma das teorias mais sólidas e interessantes foi proposta por Sternberg (veja a tabela) e se relaciona diretamente ao que nós sabemos sobre a evolução. Ele propõe que a inteligência é feita de três aspectos integrados e interdependentes: no mundo interno, as relações com o mundo externo, as experiências que  relacionam ao mundo externo e o interno.

Os Componentes da Inteligência
O mundo interno: cognição 
  1. processos para decidir o que fazer e o quão bem foi feito
  2. processos para fazer o que foi decidido ser feito
  3. processos para aprender como fazer
O mundo externo: percepção e ação
  1. adaptação a ambientes existentes
  2. modelagem de ambientes existentes em novos
  3. a seleção de novos ambientes quando os antigos se provam insatisfatórios
A integração dos ambientes internos e externos através da experiência
  1. a habilidade de se adaptar às novas situações
  2. processos para criar objetivos e para planejamento
  3. mudança dos processos cognitivos pela experiência externa

Um dos melhores exemplos que demonstram os três aspectos da inteligência é a caça cooperativa nos hominídeos. O mundo externo é caracterizado por um extenso terreno tridimensional onde existem animais muito rápidos, muito grandes ou muito perigosos como presas em potencial. Aprender como  emboscar a presa, como aproximar-se dela e como matá-la com um machado de pedra são habilidades cognitivas. Ser capaz de caçar em vários ambientes, mover-se para outras áreas quando a caça se torna escassa, ou fabricar armas de caça, armadilhas para animais, etc, são exemplos de processos relacionados aos mundos interno e externo.

Finalmente, ser capaz de se comunicar e coordenar a caça com outros seres humanos, delinear uma estratégia para caçar mais efetivamente, e desenvolver e sustentar todo o processo de caça por meio da cognição, percepção e ação, são exemplos da integração entre os mundos interno e externo.

O quanto da inteligência humana, pensamento, raciocínio, imaginação e planejamento são devidos à linguagem? Praticamente tudo,  poderíamos dizer. De fato, esses processos são uma espécie de "processamento interno da linguagem", como já foi afirmado. Um dos mais importantes especialistas em evolução humana, Ian Tattersall, da Inglaterra, propôs que o sucesso da humanidade foi largamente o resultado da linguagem, com toda a sua riqueza de sintaxe e semântica. A linguagem, portanto, é fundamental para a nossa capacidade de pensar, e o intelecto humano e as conquistas que nós vamos explicar neste artigo seriam impossíveis sem a linguagem. Para Tattersall, a linguagem é "mais ou menos sinônimo com o pensamento simbólico" e isto faz toda a diferença.

Neste contexto, aparece uma das mais importantes propriedades da mente humana que é a consciência, ou auto-percepção. Nós não temos muitas evidências se elas existem em outros animais, e quando ou onde elas aparecem em humanos pela primeira vez. Será a auto-consciência um produto da evolução? Será que ela é vantajosa para a adaptação e sobrevivência? A resposta é sim. A auto-consciência nos permite construir a realidade além de meras sensações físicas, como imaginar uma situação e as conseqüências de  nossas ações, antes que qualquer coisa aconteça.


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O Autor

Renato M.E. Sabbatini é graduado e doutor em neurofisiologia pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo em Ribeirão Preto. Realizou pesquisas como cientista convidado e para o seu pós-doutorado no Instituto Max Planck de Neurobiologia em Munique, Alemanha. É professor aposentado da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto e da Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Estadual de Campinas, em Campinas Brasil, e presidente do Instituto Edumed para Educação em Medicina e Saúde, também sediado em Campinas. Dentre suas inúmeras atividades, destaca-se também a de editor associado e presidente do  conselho editorial da revista on-line  "Cérebro & Mente".
Email: renato@sabbatini.com

  
Copyright 2001-2011 Renato Marcos Endrizzi Sabbatini
Universidade Estadual de Campinas, Brasil
Publicado em 15 de fevereiro de 2001
Atualizado em 18 de setembro de 2011
URL desta página: http://www.cerebromente.org.br/n12/evolution.htm